Os Censurados

Textos censurados no boletim Unafisco e outras noticias

LOF 007 – Licença para matar

“corte de ponto é um assunto marginal”

Este é um depoimento um pouco pessoal sobre o ultimo CONAF acontecido em Foz do Iguaçu. Como comentário marginal, quero dizer que a cachoeira é linda e ao atravessar a ponte da amizade me senti em Madureira ou Caxias. Tudo igualzinho. Só que os camelôs falam espanhol (arranham um português) e faltam pastelarias pilotadas por chineses. Falta alias imperdoável, que os chineses fazem um bom pastel em Duque de Caxias (que não comeu, recomendo fortemente).

Só comprei um perfume em um shopping que tem lá, igualzinho aos de Duque de Caxias, aquele mar de miséria e um Edifício grandão com ar condicionado no meio da balburdia. Algumas diferenças – o banheiro é no ultimo andar e só tem escada rolante até o meio do prédio, depois é escada comum. O café custa dois dólares. Os preços estão em dólares, em reais e em guarani (não fiz cambio, não sei quanto vale). E os preços parecem os do Brasil, exceção feita aos perfumes, muito mais baratos. Fiquei muito aquém da cota de 300 dólares.

E não fiz o fiscotur. Como autor de tese, os dois únicos momentos em que poderia me pronunciar seriam ao defender a tese nos grupos e no momento de sua votação em plenária. Uma das teses (fiz duas) passou no grupo, a outra não e eu teria 3 minutos em plenária (dizem que as regras mudaram, como foi o primeiro Conaf em que fui de verdade, fui um antes, mas só marginalmente) eu não sabia deste detalhe e não tentei ser delegado ou observador, para poder falar. Daí que tive que ficar calado (coisa fácil para uns e difícil para outros). Fiquei na maioria das plenárias e debates. Observei então e relato:

Surpreendeu-me um colega, hoje diretor da DEN em não colocar o problema do corte de ponto (a frase que abre o artigo). Pensei que era uma coisa seria e colocada nas prioridades e descobri que não é.

Surpreendeu-me o fato que votaram antes todas as teses estatutárias. Traduzindo – as que poderiam mudar o estatuto. Eu confesso que não consigo entender. O estatuto diz que as mudanças feitas em Conaf só valem na próxima diretoria. Ora, todos dizem que vai ser feita uma nova entidade, uma unificação das entidades para que os colegas ex-previdenciários e nós passemos a ter uma só entidade. Então, pra que votar mudanças no estatuto da unafisco já que a nova entidade vai ter um novo estatuto?

É pura ignorância de minha parte, confesso a vocês. Eu fiz uma tese que procurava não decidir quais os novos estatutos, mas levantar alguns pontos (bem polêmicos, confesso, é só conferirem no caderno de teses da unafisco a tese sugestão de parâmetros para a nova entidade sindical ou coisa parecida) para que pudéssemos abrir a discussão sobre estatutos. E foi rejeitada no grupo porque era polemica e aquilo não poderia ser discutido. Pois é. Ignorância minha, que deveria ter feito 30 teses estatutárias, bem polemicas, e levado cada uma para discussão. Aconteceria como todas as teses estatutárias. A grande maioria não foi aprovada, mas houve discussão. E as que foram aprovadas não valem. Mas deve existir alguma lógica nisso, embora eu como neófito ignorante não possa compreendê-la.

Enfim, depois de dois dias de palestras bastante edificantes onde ficamos sabendo que greve são férias e eu, tornado subitamente sábio depois de 20 anos de greve descobri que ao invés de ir em assembléias e reuniões de comando deveria ter aproveitado a ocasião e viajado para a Europa (aproveitando o dólar barato, que agora aumentou) discutiu-se o estatuto que não vai valer. Depois era para discutir as teses temáticas e a minha tese sobre greve (esta sim aprovada no grupo) poderia ser discutida.

Ai propuseram inverter a pauta e discutir primeiro a LOF. Como autor de tese, não pude opinar sobre o assunto, mas decidiram por maioria (a partir de proposta da DEN) inverter a pauta. E ai, decidido que iríamos discutir a LOF, passamos a discutir o pin.

Ignorante é assim. Pensa que o serio é outra coisa ou que a coisa é seria e sempre se da mal. Se era para discutir a LOF porque foram discutir o pin? Quero dizer que eu já entendi de computador (hoje não entendo mais, cansa demais o cérebro acompanhar estes troços que fazem a mesma coisa e mudam de nome todo dia) e pensei cá comigo: o que tem a ver tamanho de memória de computador (12 pin, 24 pin… etc.) com auditor? Mas era burrice minha, ninguém sabe mais estas coisas de memória de computador e o tal pin é um broche (em português, mas ninguém mais fala português, fala um misto de inglês com português, mais ignorância minha que mal aprendi o português, falo e escrevo mal, tenho agora que aprender inglês e mal sei Frances ou romeno, sei lá, já me perdi nestes troços mal explicados da globalização).

Explicando: o tal pin é um broche. Sempre pensei que broche era coisa de mulher ou de homossexual, mas descobri que é coisa de homem macho pra usar com terno e carteirinha. Ai ao invés de pendurar um crachá que diga “auditor”, você coloca um terno, bota o broche (digo, pin) na lapela do tal terno, bota uma gravata italiana (lembra que não pode por gravata nacional que não condiz com a dignidade do cargo) e tira a carteira de auditor do bolso, é, aquela do estrelão e já pode entrar de graça no cinema.

Sim, porque usar todo este aparato pra entrar na repartição deve ser coisa de doido. No calor de 40 graus do Rio, andar de terno, gravata italiana e pin e ainda mostrar estrelão para entrar no prédio é coisa de doido, daí que é melhor o cara ir pro cinema que pro trabalho, já que lá no trabalho ele pode encontrar outro doido que ao invés de se preocupar com o broche (pin), a gravata italiana e o terno pode estar querendo trabalhar. Ai o sujeito aparece de camiseta, camisa pólo ou uma simples camisa de botão, calça jeans e tênis e quer trabalhar? É doido. Só pode ser. Não botou terno no calorão, não botou broche, não botou camisa italiana e quer trabalhar? Tem que ser mandado pro hospício direto.

Mas me perdi na digressão. Dizia eu que inverteram a pauta pra discutir a LOF e foram discutir o broche, minha avó que gostava muito de broche teria adorado embora eu ache que ela nunca gostou muito de homem de gravata, nunca vi meu avo de terno e gravata e olhe que ele era maestro de banda do interior, compositor, professor de piano e tocava órgão. Muito mais sabido que o neto que fica em congresso vendo o povo discutir broche.

Bom, depois do brioche (que depois do broche deram pausa pro café com brioche que café com pão é pra peão, lá tinha era brioche que combinava com o broche), do terno e do estrelão (não se esquecer de levar a nota da gravata italiana no bolso interno do terno pra não ser confundido com aqueles que passam na ponte da amizade e não declaram a mercadoria que passou dos 300 dólares) começamos a discutir a tal da LOF. Ah, sim, esqueci de dizer que aprovaram que devemos usar o pin com a gravata italiana no lugar do crachá, apresentando junto à carteira de estrelão que eu já esqueci onde guardei e que vou ter que achar. Não foi esclarecido se o sindicato vai financiar a gravata italiana e se as mulheres devem usar vestido longo. Tai. A idéia é boa. Quando a gente fosse fiscalizar camelódromo ou carroça (como ta La no boletim da DEN) ficava muito bom os homens de terno e gravata italiana e as mulheres de vestido longo e sapato alto. Fiscalizando a feira de Madureira. Eta nóis!

Confesso, envergonhado, que nunca gostei de LOF. O nome nunca me soou bem: LOF. OFF. Parece coisa de gente cansada. E se parece com esta história de carreira típica de estado. Pra mim típico de estado é tapioca. É típico do Nordeste. Cajuína. Típico do Piauí. Alias, congresso no Piauí tomando cajuína seria melhor que em Foz tomando…, bom deixa prá lá. Que nem beber eu posso que o medico proibiu. Mas me perdi. O negocio é que se a gente conferir na legislação verifica que típico de estado só tem de diferença pro não típico de estado na hora da demissão. Antes de demitir o típico, tem que demitir 20% do não típico no órgão. Como na Receita só tem típico (auditor e analista) e ainda não mudaram a matemática (porque depois que decidiram discutir LOF e discutiram broche deve valer qualquer coisa) verifica que na Receita é tudo igual. Bom, agora o típico recebe subsidio ao invés de remuneração, que é uma parcela única, a exceção do auxilio alimentação por que… bom. Errei. Mudaram a matemática ou então o dicionário e subsidio é uma parcela única que vem junto com outra parcela e que até agora só serviu pra que as parcelas que eram resultados de ganhos judiciais virarem parcelas zero, este zero sim bem zero e sem chance de voltar. Mas enfim quando broche vira pin e discutir lof primeiro vira discutir broche, subsidio ser parcela única virar parcela primeira deve ter lógica e como eu disse o ignorante sou eu.

Eu nunca gostei da tal LOF, mas entendi que o troço tinha algo a ver com atribuições. E lendo a tese direitinho sobre a LOF descobri que não tinha nada de atribuições. Mas tinha tal fórum privilegiado. Gente: ETA coisa boa esse negocio. A gente pode matar a mulher que não é preso, é só não ser preso em flagrante na hora de matar! Adorei! Pena que eu não seja casado, mas fora esse detalhe o troço é bom. Vou casar já pra quando a LOF for aprovada poder usar. Agora, confesso singelamente que não entendi o que tem isso a ver com autoridade fiscal e com atribuições. Mas indaguei muito e cheguei a uma conclusão que passo a relatar.

Tudo começa com a gravata italiana. Que tem que ser italiana pra diferenciar do terno de porteiro de boate de stripetease (casa que alguns chamam de puteiro de luxo, mas é só discriminação). Porque se não for italiana você fica igual ao dito porteiro. E ai tem o broche, que porteiro também tem, mas o dele é diferente do nosso (e eu que sou míope ou estrábico não conseguia ver direito o broche, podiam ter feito um brochão igual ao estrelão). E ai você saca o carteirão de estrelão que ai sim, nem estrábico ou míope pode confundir. E tem licença para matar, estilo 007 (e se alguém não assistiu nenhum filme de 007 não posso fazer nada que como todo ignorante eu tenho um monte de cultura inútil que não quero partilhar com ninguém). E vai fiscalizar a feira de Madureira que é igual à feira do lado de lá da ponte da amizade que mais parece ponte do bagulho. E o pessoal lá anda com uns sacos coloridos que vai colocando toda a bagulhada. E eu não pude discutir a minha tese que depois de aprovada a tal LOF 007 (com licença pra matar e tudo) o congresso acabou e me mandaram de volta e não pude ficar nem no sábado nem no domingo que quando não tinha passagem no sábado de madrugada o pessoal ficou até o domingo e já no sábado não tinha quorum (só 70 delegados apareceram dos 239 inscritos). E nem encerramento solene com os delegados de terno, gravata italiana, vestido longo e broche puderam fazer.

Juro fiquei com má impressão disso tudo. Mas é só má impressão, tudo isso deve ser serio e o louco sou eu que só quero que o meu ponto seja abonado porque greve é direito, que quero um sindicato onde se discuta política sindical antes de discutir estatuto que não vai valer e que se discutam as atribuições ao invés de discutir broche e licença pra matar. Minhas sinceras desculpas pela pouca compreensão e pela pouca inteligência. Feliz PIN proceis todos.

Luiz Bicalho

www.marxismo.org.br

luizbicalho.wordpress.com

26 outubro 2008 Publicado por | Sem Categoria | , | 2 Comentários

   

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